A TRANSCENDÊNCIA DO MITO NO LIVRO DE KINOÉ - POR ARTUR ALONSO
Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.
Com alguma referência a Jean Pepin - Luc Brisson escreve no seu livro "Introdução à filosofia do mito"
A alegoria, rejeitada por Platão, que, entretanto, não renunciou ao mito, e praticada com muita reserva e prudência por Aristóteles, permitiu que os Estoicos associassem as principais figuras da mitologia grega a virtudes, aos elementos (fogo, ar, água, terra), a faculdades e mesmo, nisso seguindo Evêmero, a seres humanos divinizados em razão de grandes serviços prestados ao gênero humano.
Os mitos e os mistérios devem ser considerados dois meios complementares utilizados pela divindade para revelar a verdade às almas religiosas. Os mitos trazem essa revelação por intermédio de narrativas, ao passo que os mistérios a apresentam sob a forma de dramas. Nesse contexto, o poeta é considerado um iniciado, ao qual foi revelada uma verdade pertencente a outro nível da realidade e que é por ele transmitida de modo a ser acessível a apenas um pequeno número de pessoas dignas dela.
Esse modo de transmissão implica o emprego de um discurso codificado, um discurso de duplo sentido, que se inscreve na esfera do segredo, na qual tudo se encontra expresso por enigmas e por símbolos. O poeta não é mais, consequentemente, um filósofo ignorante de si, mas um teólogo que se esforça para transmitir com prudência uma verdade à qual a filosofia permite um acesso direto.
Para oporem-se à escalada de poder do cristianismo, depois de sua dominação como religião de Estado, os neoplatônicos lançaram mão de todas as suas forças para estabelecer um acordo completo entre a doutrina platônica considerada uma “teologia” e todas as outras teologias gregas, as que se encontravam em Homero, Hesíodo, Orfeu e nos Oráculos caldeus. O aparecimento do cristianismo e, sobretudo, sua dominação complicaram os dados do problema. De agora em diante, o mito não devia apenas estar de acordo com a história e com a filosofia, mas também evitar chocar-se diretamente contra os dogmas da Igreja. Um novo esforço de adaptação e, então, de interpretação foi consentido de início pelos Pais da Igreja e, depois, pelos pensadores e pelos artistas no mundo bizantino e ao longo da Idade Média latina. O resgate não foi tranquilo nesses períodos turbulentos, quando a transmissão do saber não era coisa fácil. Mas ele foi real, tanto que a Renascença recebeu como herança um tesouro de narrativas e de representações, cuja forma verdadeira ela se pôs a restituir com fervor e talento.
Ao assegurar, constantemente, sua adaptação e sua interpretação ao contexto de sua recepção, a alegoria, que por isso não pode ser rebaixada ao nível de um fenômeno marginal e um pouco ridículo, permitiu ao mito sobreviver. É a história desse resgate que é descrita aqui, uma história cuja imensa engenhosidade e incrível flexibilidade só podem ser admiradas.
Mas por que ser assim feroz para assegurar uma verdadeira sobrevivência a mitos tão antigos e tão estranhos em muitos pontos? Talvez porque nem a razão nem uma fé nova souberam exprimir melhor do que esses mitos algo completamente particular e irredutível no âmago do coração dos seres humanos, que, de geração em geração, não cessaram de transformar, sem perceber, uma mesma herança cultural oriunda da Grécia antiga.
Reconhecer os limites da razão não leva ao irracionalismo. Como F. Walter Meyerstein e eu mesmo buscamos mostrar num livro intitulado Puissance et limites de la raison, 1 o poder da razão reside paradoxalmente na capacidade que ela possui de reconhecer seus próprios limites, limites cuja transgressão leva, entretanto, diretamente ao irracionalismo.
No seu estudo "A interpretação alegórica de mitos" - Loraine OLIVEIRA escreve: "Ora, para os gregos, Homero e Hesíodo, ao lado de Orfeu e Museu, são a fonte da antiga tradição. (...) Aristófanes, por exemplo, oferece uma boa representação desta ideia quando ele põe lado a lado Homero, Hesíodo, Orfeu e Museu, poetas de alma nobre, que deram à Grécia suas mais belas tradições. Uma diferença entre eles é que Orfeu e Museu, que teriam vivido antes de Homero e Hesíodo, são apenas lembrados. Homero e Hesíodo, por seu turno, podem ser lidos e citados, além de lembrados."
Os mitos ressoam na humanidade no interior do seu Inconsciente individual e coletivo. Carl Jung pode estudar em este contexto a importância dos arquétipos mitológicos.
A ideia, por exemplo, da encarnação do Deus Todo Poderoso – Pai criador – no filho mitológico das diversas tradições está muito presente no coração interior de todos os seres humanos.
Aqueles Avataras do amoroso Vishnu da tradição indiana mantém o ideal do caminho transcendente, e a possibilidade da elevação e libertação dos seres humanos das cadeias, apegos e enganos da matéria.
Esses filhos divinos, que permitem a descida ao plano material do Eterno Todo-Uno como Deus Encarnado, abrem com seu nascimento, morte, descida aos infernos e ressurreição dentre os mortos, a possibilidade de salvação para toda à humanidade ao vencer, com seu sacrifício, o mal e a morte. Deixando uma guia marcada para a ascensão dos mortais a vida imortal e eterna – por meio da conquista da virtude e do vencimento do inferno interior – dos medos, apegos e sombras.
A poesia épica de Homero tem um caráter formativo, para o gregos, por sua moralidade e visão ética daquele ser humano, confrontado com as suas dificuldades, onde o verdadeiro herói procura a via da retidão – Mesmo nas tragédias da vida, como em um espelho a poesia de Homero, nos mostra os caminhos da perdição e da salvação, que os humanos decidem trilhar. Enquanto o primeiro conduz a queda no inferior – o segundo abre a senda para a elevação e libertação.
"Homero dá aos gregos o começo da sua história, com a guerra de Troia, narrada na Ilíada. Hesíodo dá aos gregos uma explicação sobre a origem do cosmos na sua Teogonia. Dão também uma geografia, noções de justiça, inteligência, amor" afirma de novo Loraine Oliveira, na seu já mencionado estudo.
Já Platão, na “República” nos adverte de que aos jovens deverão ser-lhe transmitidas narrativas com a maior nobreza possível, orientadas no sentido da virtude. Ele descarta por isso que a alegoria mitológica possa ser aberta a seu estudo, dado que, segundo ele, não e seguro saber se encerra um significado oculto e, de ser assim, aqueles que são novos não tem capacidade de diferençar aquilo que é alegórico do que não.
Por isso como afirma Loraine Oliveira, Platão adverte aos compiladores de mitos – para transmitir de forma adequada e moralista os mesmos.
Assim o guerreiro herói mitológico combate não para alcançar a fortuna e o poder material, senão para atingir a gloria do não esquecimento – no imaginário coletivo – Assim como Aquiles, Alexandre morre novo, Hércules realiza seus trabalhos na força da mocidade e Gilgamesh empreende sua epopeia na linha que separa a mocidade da maturidade – Sendo que a maturidade se obtém no processo de experimentar o longo caminho da busca da verdade.
Os filhos encarnados também atuam em essa fase da juventude – e a alegoria de ambos é similar. Mesmo que no caso do herói humano mitológico, que muitas vezes possui uma parte divina – mas não é divino na integra, tende a cometer, precisamente pela ignorância e impulso humano inferior, erros que o afastam do caminho. Mesmo assim o destino de ambos e a procura do caminho transcendente da transformação. Assim como a disposição para aceitar o sofrimento e sua capacidade para suportar em silencio as provações adscritas a seu destino. Do mesmo jeito que lutam pela obtenção da elevada justiça, da bondade e do bem comum.
Um dos primeiros pensadores a inspecionar a validade do mito, na Grécia Clássica, foi Heráclito. Ele propôs uma visão de mundo em constante mudança e enfatizou a luta e a harmonia dos opostos, desafiando as narrativas mitológicas que muitas vezes apresentavam um universo estático e pré-determinado. Para ele, a razão (logos) poderia esclarecer o que o mito tinha obscurecido. Da mesma forma, Parmênides, ao postular a ideia de que a realidade é uma, imutável e eterna, refutou as histórias míticas que apresentavam uma multiplicidade de deuses operando em um mundo caótico
Para Heráclito a razão deveria esclarecer o que o mito tinha obscurecido – explicar bem sua alegoria, baseando seu caminho na observação natural da continua mudança e da harmonia e oposição relativa dos contrários. Parmênides aponta para a unidade da realidade – enquanto a mitologia grega aparenta fomentar a divisão – no entanto a tradição indiana com Shankara já nos mostra a unidade do Ser Eterno – e os deuses podem ser interpretados como aspetos diversos do divino dentro da manifestação – como forcas manifestadas também podem ser visionados os Teolt da tradição nahualt do México.
As narrativas míticas, como bem mostrou Luc Brisson em seu já referenciado trabalho - ajudam as sociedades a entender suas tradições e seu evoluir histórico, ao fazer de ponte entre o passado e o presente. Asseguram a perseverança cultural contra as tentativas de banalização materialista das sociedades, reafirmando a identidade mesmo num processo de abertura a achegas doutras culturas – O mito une pela essência a diversidade cultural permitindo a unidade não forcada – mantendo viva a diversidade dentro da mesma.
Ligando à comunidade com suas praticas espirituais mais transcendentes. Honrando os antepassados e mantendo o foco da unidade ser humano, natureza, divindade. Valores essenciais dos mitos ajudam a entender a necessidade da unidade coletiva, baseada no respeito e na boa convivência. Fortalecendo os laços comunitários e os valores éticos e virtuosos, assim como a coragem para mudar as circunstancias adversas e a solidariedade como meio de afrontar retos em comunidade. A sua vez o mito fundador marca uma génese cultural mantida pela unidade.
Daí a centralidade mito como veiculo de transmissão de valores, saberes ancestrais inatos a toda a humanidade (mas simbolizados de diversas formas) e de crenças profundas – que marcam a psique individual e coletiva da humanidade.
O Prof. Dr. Ricardo Alexino Ferreira, no seu estudo “Mitologia Hindu: Questionamentos simbólicos e representações”, afirma: “a corrente positivista esquece de considerar o lado emocional e afetivo humano. A ciência não oferece uma única interpretação válida do real. O mito trata-se da primeira forma de dar significado ao mundo. Ele utiliza a imaginação para criar histórias que nos tranquilizam diariamente frente à insegurança gerada pelas nossas questões primordiais. Nos dias atuais, os meios de comunicação de massa e a indústria cultural trabalham com esses nossos desejos e anseios da nossa natureza inconsciente e primitiva. Seja em desenhos animados, gibis ou filmes, observamos os super-heróis assumindo os papéis do Bem e da Justiça, em nossa proteção imaginária, devido aos problemas crescentes de violência nos centros urbanos. Podemos, então, perceber que os mitos acompanham toda a história humana” (..) “Nesse cenário, encaixa-se a psicologia analítica, que estuda o campo da mitologia através da relação entre mito, arquétipos, símbolos e inconsciente coletivo. Seu fundador foi o psiquiatra e psicoterapeuta suíço Carl Gustav Jung que classificou os arquétipos como estruturas da psique pré-racional que não têm conteúdo específico e são herdadas desde os tempos mais remotos (…) Além disso, os arquétipos podem ser classificados como potencialidades que existem no inconsciente coletivo. Ou seja, eles não estão prontos no nascimento do indivíduo, mas serão utilizados de acordo com as possibilidades que surgirem. Isso nos leva ao estabelecimento de um paralelo entre a teoria Junguiana com a 18 Filosofia de Shankara, o Advaita Vedanta” (…) “O universo na mente dos Hindus funciona de maneira similar ao inconsciente coletivo de Jung. Todos estariam conectados por alguma subjetividade indecifrável, intrínseca a todos, e o Advaita Vedanta é uma maneira que o ser humano encontra para, ainda que a partir da fé, decifrar essa subjetividade. Essas dúvidas existenciais são notadas na humanidade muito antes de Jung desenvolver sua teoria. Isso apenas ajuda a verificar ainda mais a sua tese”
No seu livro “O poder do mito” Joseph Campbell afirma: “As imagens do mito são reflexos das potencialidades espirituais de cada um de nós. Ao contemplá-las, evocamos os seus poderes em nossas próprias vidas.”
Escrevemos nosso “O livro de Kinoé” com a esperança desse rica mitologia global da humanidade, presente na nossa psique, pudera seguir suscitando encontros amorosos – em procura do caminho transcendente que conduz a ética sabedoria.
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Honra seja àqueles que na sua vida
definiram e guardam uma Termópilas.
Sem mover-se do seu dever constantes;
justos e rectos em todos os seus actos,
contudo com dó e compaixão;
dadivosos quando são ricos, e quando
são pobres, também modicamente dadivosos,
também auxiliando quanto puderem;
sempre da verdade afirmantes,
porém sem ódio para os fementidos.
E ainda mais honra lhes seja devida
quando prevêem (e muitos prevêem)
que Efialtès surdirá no fim,
e os medas finalmente passarão.
Konstandinos Kavafis
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