NA PROCURA DE REALIZAR O SER - por Artur Alonso
"Se é a vida um grande sonho, por que atormentar-se?" - (Li Bai)
Refletia Fernando Pessoa, nos seus "Escritos Ocultistas" (Ediçao Assírio & Alvim, maio 2026 - pag. 39): "É fora de dúvida que Cagliostro era um charlatão; mas não é menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado. É fora de dúvida que Madame Blavatsky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de Superiores Incógnitos. Nos nossos dias há um exemplo estrondoso da mesma mistura, não o cito explicitamente por motivos fáceis de compreender (aqui Pessoa provavelmente nos falara de Alister Crolwey - aquele que deu pé a perversão dum ocidente em declínio - com o seu "faz o que quiseres tudo é de lei" - mas que também possuía conhecimentos muito elevados. Faltou aqui a clareza de Santo Agostinho - que ao faz o que tu quiseres, acrescentou, sempre que seja com amor - Aqui Santo Agostinho nos lembra a parábola budista do ladrão - que quando descobriu a ética já não podia roubar. Sendo o Amor que marca o ético caminho).
Afinal o que aqui, Pessoa, nos aclara tem a ver com as luzes e sombras que todo humano ser carrega, dentro de Si. Assim se abrirmos bem os olhos ao conhecimento veremos que o importante não é tanto a vida duma pessoa, senão o legado que a mesma deixa a humanidade. Saber distinguir, a sua vez, o valor de luz deixado em sua obra, ao tempo que tirar ao lixo os seus escritos confusos e marcados pela sua inferior ególatra pessoalidade. Eis a chave do bom caminhante em procura do seu verdadeiro ser: .diferenciar a fruta amadurecida e retirar do canastro a fruta que começa a apodrecer
O SIMBOLISMO DOS FILHOS OU FILHAS DIVINAS
"Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim."— (João 14:6)
Não importa, aqui, a existência histórica real ou não de determinados "elevados seres" - Se não aquele legado, transmitido em seu nome à humanidade - Na procura do caminho que realmente libere as "pessoas" dos pesados trabalhos da existência na materialidade.
Aqueles filhos ou filhas - da divindade - As Isthar, Inanna, Issis, Horus, Krisnhas, Quetzalcoalt, Lugh, Brigantia ou Cristo - independentemente, da veracidade ou não, da sua figura histórica e fora desse debate académico - representam aqueles "Avataras de Visnhu" - o amoroso - dentro da tradição indiana" - E dizer apresentam um determinado caminho, em uma determinada era - para que a humanidade possa evoluir - e adentrar-se na via da Ética, do bem, da justiça e da verdadeira beleza artística e humanista.
As narrativas das suas vidas e o simbolismo da sua morte - nos indicam o caminho de superação "do medo à morte" - como única forma de ascender do mundo ilusório e efêmero da aparência das formas, e dos apegos na matéria, até o "Incondicional Amor Eterno" - que marca a união com o mais elevado Ser dentro de nós mesmos; nosso "arquétipo perfeito".
A descida aos infernos de Inanna-Isthar na procura de sua amado Tamuz - que representa a sua contraparte masculina - expansiva da semente da vontade de agir - que alimenta e potencia sua parte feminina respetiva, limitadora e geradora da realidade material... Nos monstra também uma morte ritual de crucifixão e ascensão - do inferior infra-mundo até o superior céu que liberta - Obtendo a total Vitoria sobre todas as provações da vida: a Vitoria sobre à morte (apego aos estímulos dentro da efémera matéria) e a obtenção da Gloria - ou da Eterna Vida (renúncia a viver dentro do reflexo do verdadeiro ser - como no mito de Narciso - que se namorou do ilusório, deixando-se enganar e cair preso no cárcere das enganadoras formas para experimentar seus desejos encobertos) - O desejo ou sede, segundo as filosofias do budismo e hinduísmo, cria a nossa necessidade de vir, a este plano, experimentar esta vida.
No "Evangelho apócrifo de Bartolomeu" - podemos ver a descida do Cristo aos infernos - libertando os mesmos bastiões obscuros dos demónios que retêm à humanidade caída. Representando aqui a crucifixão ritual do Cristo - O "filho de Deus" - sacrificado como cordeiro para salvar à humanidade - a vitória sobre as sombras da matéria e sobre todos seus enganos e perversões - Obtendo uma vez ultrapassado o "Abismo" dentro nós mesmos - a Glória da Eterna Vida.
O mesmo "Buda" - Sidarta Gautama - não se tornaria o "iluminado Shakyamuni - o "Sábio do Clã Shakya" - sem antes crucificar-se encostado a "sagrada figueira" - enquanto descia aos "abismos de si próprio" - e permanecia na neutralidade da impassibilidade, olhando aos estímulos materiais - centrado no seu Interior - sem deixar-se seducir o amdrentar por eles. Obtendo a unidade com o seu Ser mais elevado.
O próprio demo Mara - o "Senhor da Ilusão da Materialidade" - tentou ao Buda, como o Demónio tentou a Cristo no deserto (oferecendo-lhe todos os terreais reinos) - mas o Buda resistiu a polaridade da atração e rejeição dentro da materialidade - e também ao apatite que desperta a sensualidade, lascívia e sensibilidade - Obtendo finalmente a Vitoria sobre todo o efémero - material - limitativo - e atingindo a Glória do Eterno - Imaterial - Transcendente - Ilimitado. Dessa experiência, do Buda, se marcou o caminho óctuplo da superação da dor e o sofrimento - uma vez reconhecidas as 4 nobres verdades.
Os buscadores da verdade, podem através das vidas nobres dos elevados seres - das diversas tradições - encontrar uma guia - para eles mesmos confrontar - suas sombras - e ir, segundo seu nível evolutivo, transcendendo aqueles medos e aquelas deformações, que já estão, em esta vida, a seu alcance, para serem ultrapassadas. Obtendo um melhor e maior sucesso nas provações, próprias da sua etapa evolutiva, que a cada pessoa, segundo seu estado "na escada de ascensão" tem na sua vida, quando camimha em direção a seu Ser mais Brilhante. Segundo a cada quem lhe corresponder.
O DESCOBRIMENTO DO SER
Entre os relatos humanos, mais atuais, temos a experiência de Sri Ramana Maharshi - que com tão-somente 16 ou 17 anos, teve uma crise de pânico - um medo terrível à morte - que o fez acreditar mesmo estar a morte realizando-se em ele. Quando se achava morto - descobriu - que o final do corpo - não significava o final da verdadeira vida - A vida do "Ente Superior" - que dentro de nós é Eterno -
Ao ver-se morto - o jovem Ramana interiorizou a sua consciência e o foco da sua atenção, de tal forma dentro de si - que conectou com esse "Ente Eterno" - Seguramente por que estava em seu momento evolutivo de fazê-lo- Atingindo esse Eu Superior dentro de nós que nunca morre... Essa faísca de luz, parte do Todo Espírito, das diversas tradições espiritualistas? Essa centelha do Sagrado "Fogo Agni" da tradição indiana? - Esse fractal do Campo unificado quântico, do que nos fala Nassim Haramein, ou nos falava Richard Feynman? - Esse Eterno dentro do todo sem limite - pudera ser assim?
A partir daí Ramana passou a viver uma vida de retiro espiritual, longas horas em meditação -Ministrando aprendizagem a quem quiser ouvir ou, melhor, tivesse interesse em indagar sobre si próprio ou perguntar - dado que Ramana Maharshi habita muito no conforto do silêncio e somente falava se for preciso ou requerido por pessoas na busca da verdade. Lembrando o silêncio como portal de união entre as notas - O silêncio que nos conduz ao interior de nós mesmos - O silêncio por trás da vibrante e exuberante vida nos conduz aquela precisa calma.
OS CAMINHOS
"Não há um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho." - (Buda)
Múltiplos são os caminhos que podem ajudar-nos a concretizar o silêncio, dentro de nós. Caminhos que nos podem dar certas guias - para concentrar nosso foco e nossa consciência - naquele interior profundo - Para, depois, descobrir como vencer nossas sombras - e, se estivermos já na nossa fase de ascensão ou elevação (fase de desprendimento da atração nos diversos e múltiplos estímulos na matéria) - poderemos, tal vez, através da meditação, oração, contemplação - ir equilibrando aquele falso caminho dos "supostos contrários em continua luta"
Encontrando através desse equilíbrio entre o rigor e o amor - entre a severidade e a misericórdia - a chave para conseguir manter nossa balança interior sempre harmonizada - Por meio de descobrir a complementaridade dessa "falsa dualidade" - somente precisa aquela dual ilusão, em início, para nossa aprendizagem ser aproveitada, dentro desse espelho dual - da material realidade - procurando o bem e transformando o mal existente, em nós e na sociedade, na medida das nossas possibilidades. Tal como afirma o ditado sufi: "O universo acolhe com igual amor - a luz e a sua sombra"
Múltiplos são os caminhos e muitas as tradições, cada quem terá de escolher aquele que lhe ressoa dentro da sua alma. No entanto todos os caminhos devem incluir, dentro de sua espiral "montanha simbólica de ascensão" as seguintes fases:
1,- Deixar o caminho da egolatria - ir diluindo a inferior pessoalidade dentro de nós - Aquela alquímica "putrefação do eu inferior"
2,- Depurar as sombras - aniquilar mediante a transformação do perverso em nós - aquelas tendências regressivas que nos atam a prisão da carne - que nos cercam dentro da "Roda indiana e budista do Samsara" - que nos impedem de desligar-nos do "fascínio de Narciso" - pela aparência duma suposta e efémera realidade - reflexo somente daquela realidade superior - do "Ser" - da "Elevada Consciência" - A alquímica "Depuração do eu inferior"
3,- A ascensão daquela personalidade inferior - já sublimada - a Alma Limpa - até aquela Consciência Superior - em nós - onde o Amor, a Ética e a Justiça - constroem a beleza verdadeira ou espiritual no mundo.
4,- A União daquela pessoalidade inferior - já limpa de cargas - e limpa de sombras nocivas - com nossa realidade verdadeira - ou Ser Superior - dentro do Amor Incondicional que já não teme à morte - As famosas "Bodas Alquímicas" de Christian Rosenkreuz
5,- Atngir a Vida Real ou "Quinta Essência" - Transcendência, quando a pessoa estiver já totalmente evoluída (não sabemos em que vida, se a pessoa acreditar na reencarnação) - conseguindo finalmente aceder àquele simbolismo da cruz celta - ou cruz espiritual - Onde a vertical da vontade, a horizontal da inteligência e o círculo da emoção, no centro da mesma cruz (que simboliza o espírito no corpo material aprisionado) perfeitamente equilibrados - nos permita transcender a própria cruz da matéria - Vivenciando aquela vacuidade do amor - total (-libertação da cruz material) - que no budismo zen - manifesta a total "doma do boi" - E dizer a personalidade animal dominada pela pessoalidade elevada hominal - e, finalmente, transcendida esse personalidade sublimada (Limpa a Alma) ate o Ser da Unidade com o Todo...
O AMOR COMO BASE
Somente através do amor - única força para confrontar nossos diversos medos - cada pessoa, segundo seu momento evolutivo, poderá ir, vida a vida (se acreditar na reencarnação) ou em esta vida (senão acreditar na reencarnação), amadurecendo e aprimorando seu caminho.
Não tentando ir mais além, do que lhe toca em cada momento; nem procurar enfrentar aquelas provas que não estão na sua frente. Aceitar seu destino, e dentro das situações que se manifestar na sua vida, tentar ir ao encontro desse seu interior Ser Elevado - por meio duma atitude ética, moralmente ativa, justa na medida do que pode ela realizar e em favor dum dialogo aberto com seus semelhantes.
Tentando criar pontes de diálogo que minorem as guerras dos egos que procuram diferenças e dividir para transmitir a energia do confronto. Os egos da imposição e da dominação, que devem ser o primeiros a ser trabalhado.
Pois se formos capazes de modificar nosso interior caminho errado em procura do Ter - possuir - dominar - E caminhar em favor do Ser - sentir - conviver - dialogar - podermos conquistar a Tripla libertação ou Tripla pacificação:
1,- Libertação da nossa egolatria - por meio de pacificar nossas sombras, animadversões e perversões internas - Modificando nossas ânsias de domínio e controlo pela procura da nossa superior força de vontade - Para voltar-se em favor da verdadeira vida colaborativa e ir a caminho do encontro do Bem, da Verdade e da Justiça.
2,- Libertação da Sociedade - pacificação dos seres humanos entre si - E dos instintos destrutivos com a natureza - mudando o ser predador pelo ser apreciador. Uma vez pacificado nosso ser interno - modificado nossa personalidade ególatra pela altruísta - abrir-nos ao dialogo social e ao convívio respeitoso com nossos vizinhos e o meio ambiente que nos rodeia.
3,- Libertação dos povos - Pacificação do instinto guerreiro da imposição - pelo dialogo e colaboração entre os diversos povos - Permitindo toda diferença de opinião, visão, confissão e acesso ao conhecimento - e unindo todo pela comum essência.
Uma vez pacificado nosso interior ser, pacificado nossas sociedades o dialogo e pacificação entre povos será possível - Mas somente atingindo os dois primeiros níveis o terceiro pode ser concretizado.
Estes três níveis de evolução individual e coletiva terão de ser trabalhados conjuntamente - Permitindo que aquelas pessoas, irmãos mais elevados no caminho possam servir de referente e, mesmo dirigentes para concretizar a sonhada e ainda futura (devido a baixa tónica evolutiva da humanidade) "Fraternidade Humana" - Aquela que sonhou "Louis Claude de Saint - Martin, quando inspirou a famosa máxima da revolução francesa "Igualdade, Liberdade e Fratenidade"
Máxima que ainda não pude ser materializada na realidade social e geopolítica mundial, por que os interesses, na mesma revolução francesa de "soberanistas" e pró-britânicos confrontaram - dentro dum marco europeu de luta pela hegemonia. Hoje em dia esse marco segue em guerra - entre diversos interesses geopolíticos e diversas visões civilizacionais - que já temos analisados em outros textos.
Mas, apesar das quedas momentâneas da humanidade no caos e a densidade da guerra, os elevados preceitos continuam em pé. E os ciclos civilizacionais - permitem quando uma civilização entra em colapso - que a "chama da verdade e da esperança" - flua em outro novo "centro geográfico"
Centro, que durante um determinado tempo dê impulso a uma determinada tónica evolutiva - Ate finalmente, no seu devido tempo, a humanidade, em seu conjunto, possa libertar-se das redes da "ignorância" mantendo um passo mais firme em favor de realizar seu Ser mais Elevado - Aquele, que ultrapassado todo medo, no Amor Incondicional possa encontrar-se, com os outros, sem temer ser por eles prejudicado.
Lembrando aquelas duas frases de Lao Tse: "Uma jornada de mil milhas começa com um único passo." -"Conhecer os outros é sabedoria; conhecer a si mesmo é iluminação."
Magnífico texto! Grata por partilhar conhecimento valioso!
ResponderExcluiragradecemos irma
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