A ESSÊNCIA DO SER EM DISPUTA - por ARTUR ALONSO
Desde os primórdios da vida o ser humano olhava o céu - e procurava uma conexão com algo que intuía transcendente - O caminho das estrelas no firmamento, o sol renovador da vida vencendo à noite da escuridão. A água que calma a sede e renova, o vento - o ar do respirar...
Segundo Mircea Eliade - para o ser humano arcaico a realidade material - não deixa de ser mais que uma repetição dos arquétipo celestes. Em esse esquema um centro geográfico terrestre tem de estar alinhado a um centro geográfico superior - na cúpula celestial.
Daí nascem em início as montanhas sagradas, depois os Templos - os Os Zigurates da Mesopotâmia - com suas 7 escadas - de ascensão - simbolizando os 7 planos celestes - relacionados com o 7 humanos.
Para Eliade é a manifestação do "sagrado" que funda ontologicamente o mundo. Segundo esta visão o mundo terá de procurar sua raiz e justificação no divino transcendente, anterior a ele.
Em esse sentido, o "Poimandres" - primeiro livro da tradição hermética- revela como o "sagrado" desce da luz criando os mundos e o "homem arquétipo" a semelhança do divino. No século II d.C. a tradição hermética fusiona a visão neoplatónica, pitagórica e estoica grega, com o primitivo cristianismo.
A tradição grega sempre bebeu das fontes egípcias. Filosofos como Tales de Mileto, Pitágoras ou Platão, se fala, estudaram ao pé dos sacerdotes do Egipto.
Aristoteles, na sua "Metafísica", reconhece que foram os sacerdotes egípcios quem passaram para os gregos os princípios da aritmética.
Egipto teve acesso ao conhecimento dos Caldeus (que inclui a tradução da Mesopotâmia) e vice-versa. O judeus tiveram assentamento com os Caneneus - que receberam influências mutuas com Egipto e a Mesopotâmia.
Daí a tradição hermética e neoplatónica- manter essa raiz - da qual a Europa do renascimento volta beber- quando, a finais do século XV, Cosimo de Medici, traz de Bizancio - ao Mestre Pleto - que volta abrir uma nova academia neoplatónica.
A arte do renascimento revela a volta a essa visão neoplatónica (encoberta) do mundo. Da Vinci a manifesta em todo seu esplendoroso brilho.
Massilo Finiccio continuará a obra inacabada de Pleto. Mas todo esse conhecimento fica em seu nevoeiro, de novo com o passar do tempo, enquanto o materialismo segue a tomar corpo - com a física e filosofias dos séculos XVII e XVIII - culminando na racionalidade do Iluminismo (boa para ativar nossa mente racional- mas talvez agora deveríamos avançar ate procurar de novo estabelecer um dialogo mais aberto com o transcendente).
No continente Americano, observámos, como as tradições Incas, Mayas ou Nahualt estavam mais ligadas as visões do Oriente chinês- com possíveis ligações marítimas entre o Peru e a Polinésia, que as visões do Deus antropomorfico das tradições europeias...
Com a chegada dos conqistadores europeus- os Tlaot - forças dinamicas vivas do universo e da natureza (mais perto da visão taoista da China)- do México pré-hispânico - foram transformadas em Deuses ao estilo ocidental- conceituando esses povos de politeistas...
Do mesmo jeito foi introduzido o conceito de forças e poderes conflituantes do Bem e o mal, quando na tradição nahualt (ao igual que no taoismo) essas forças eram aceites como dualidade natural - luz, sombra - (reguladas pelo poder de Tepozcipocla) - sem as quais a matéria não poderia manter seu equilíbrio dinâmico, e pelo tanto manifestar-se.
Voltando ao cerne - Já no início das civilizações, segundo o processo civilizacional avança - e novas estruturas sociais, mais complexas, tomam forma - o ser humano (mantendo o primitivo ideal do sagrado unido ao profano) vai legitimar a organização política e social arredor do centro geográfico ou "ônfalos"- que realiza essa conexão entre o céu e a terra.
Sendo assim os estamentos institucionais próprios do território (Rei - guerreiros, Sacerdote - religiosos, comerciantes, artesãos, camponeses...) vão procurar uma legitimação divina - celestial - universal, conforme aos estratos organizativos destas sociedades.
Os nomes dos primeiros grandes Reis da Mesopotâmia como Sargão da Acádia - com o significado de "Verdadeiro Rei" - O assírio Assurbanipal ("herdeiro do Criador Assur") ou Hammurabi ("Parente Sanador") lembram essa tentativa de relacionamento das monarquias com a Divindade. O rei é de alguma forma designado pela intermediação divina.
Para René Guenon a unidade divindade - humanidade forma parte integral do nosso ser - Sendo que mediante o processo de toma de consciência o humano ser pode reconhecer sua essência universal.
Quando a alma transcende os limites ilusórios da egolatria, ocorre a "fusão" panteísta que permite integrar a personalidade no verdadeiro ser - transcendente.
Para Guenon, influenciado pelo ideial sufi do "al-Insân-Kâmil" - o ser humano reflete os atributos da divindade - formando uma sintese complexa entre o macrocosmos - universal celestial e o microcosmos - material e terrenal.
Por meio do processo de "Transposiçao Metafísica" - a unidade entre o principio divino e terreno se produz dentro do nosso ser - Atingindo um novo estado de Consciència - Aquelas famosas "Bodas Alquímicas" de Christian Rosencreutz - ou a "artúrica realização de beber da Taça do Graal" - Somente possível ao imaculado Galahad - limpo de alma - não maculado.
"Segundo as crenças dos mesopotâmios, o Tigre tem o seu modelo na estrela Anunit e o Eufrates na estrela da Andorinha ('). Um texto sumério refere o «lugar das formas dos deuses», onde se encontram «os deuses dos rebanhos e dos cereais» (...)Na cosmologia iraniana de tradição zervanita «todos os fenómenos terrestres, abstractos ou concretos, correspondem a um termo celeste, transcendente, invisível, a uma «ideia», no sentido platónico. Todas as coisas e noções se apresentam sob um duplo aspecto: o de mênók e o de gétik - Qualquer virtude praticada na terra, no gêtáh, possui uma contrapartida celeste que representa a verdadeira realidade... (...) enfim, tudo o que se manifesta no gêtáh, é ao mesmo tempo ménók" (Mircea Eliade - "O Eterno retorno")
Vemos pois, segundo estas filosofias, que toda realidade material - tem sua correlação numa realidade maior transcendente - celestial.
A ideia da "teoria das emanações" de Nicolau de Cusa, toma aqui sentido. Igualmente o ideal cabalístico da mística hebraica ou qualquer outra conceção da "mitológica árvore da vida" - que em diversas cosmogonias ao redor do mundo - traça o caminho de densificação do subtil espiritual em realidade material - assim como o caminho de retorno à origem: a subtileza reclamando o denso.
O simbolismo da "geómetra sagrada" com sua vesica piscis, sua semente e flor da vida (que contém dentro a Árvore da vida)... toma também aqui encaixe nestas analogias, como forma da emanação energética e inicio do processo de densificação.
Essa energia - nascida do som - do verbo ou palavra, tal como afirma a mitologia egípcia e também o inicio do Evangelho de São João - começaria seu ato de corporificação através de determinadas geometrias. O desenho duma molécula de neve - observado em algum cristal - poderia representar uma observação palpável desse processo.
Para Julius Evola - o Principio Superior Espiritual - é a força formadora da realidade material - Imprimindo sua ordem também na pisque e no corpo humano.
Dentro desta conceção - o Grupo Eranos ("Banquete fraterno") criado em 1933, pela teosofista Olga Froebe-Kaptevn, pretendia promover um novo humanismo, nascido de erguer de novo aquela ponte, hoje quebrada, entre o Oriente e o Ocidente.
Segundo Henry Corbin essa ponte foi quebrada quando as elites da Europa Ocidental substituíram o pensamento neoplatónico de Avicena - pelo aristotélico de Averroes.
Chegando finalmente a distinção cartesiana entre substancia pensante e substancia extensa, passando a existir dois tipos de entes: físicos e mentais; assim como dos modos de conhecer: a perceção sensível e as categorias do entendimento. Aqui a ponte com o Oriente começou a desaparecer.
Corbin advertiu em seus escritos de que si o Ocidente não volta a ligar a realidade material a seu princípio transcendental (espiritual) - o desenvolvimento cientifico tecnológico na Europa e nos Estados Unidos corre o perigo de atingir uma progressiva desumanização.
Diverssos autores do Oriente e da Eurásia - acreditam os movimentos culturais no Ocidente caminham já ate uma forma de trans-humanismo.
O filosofo Yuval Noah Harari afirma diretamente que esse trans-humanismo é um processo lógico inevitável e se tornará realidade, num futuro - como única forma de evolução natural da humanidade.
A visão do "Iluminismo Obscuro" de Nick Land e Curtis Yarvin - e seu modelo Tecnocrático de "Governança Privada Corporativa" apoiado por Elon Munsk - é observado pelo poder Oriental e Euro-Asiático - como outra forma de desconexão trans-humanista entre o imanente material e o transcendente espiritual.
Fazendo este tipo de filosofias ocidentais observar o "Transcendente" como algo ilusório e fora da realidade única - que é racional e materialista.
E, aqui, nesta guerra global não somente pelo controlo geopolítico, económico e cultural do novo processo secular - senão também pelo tipo de nova civilização - e dizer pelo controlo da "noosfera" ou esfera do pensamento, onde as forças do Ocidente e do Oriente voltam a estar em combate.
Esta guerra na Noosfera- vai delimitar se num futuro a Consciència será percebida como um subproduto da matéria (visão ocidental) ou como uma fração da mente ou Consciència Superior Cósmica, com a qual no final do ciclo (Pralaya indiano) deverá fusionar-se (visão oriental)
Aqui o progessista modelo ocidental baseado no "Ter" - possuir - experimentar dentro da materialidade, para dominar a mesma matéria - Confronta com o tradicionalista conservador modelo oriental - baseado no Ser - como ente transcendental - onde a matéria é uma projeção do espírito.
Sendo, na visão transcendente oriental, como refletem os vedas da Índia, o espírito e materia uma mesma substância em diversas gradações: a matéria espírito densificado, o espírito matéria subtilizada.
Os ciclos e eras, comportam em sua essência o processo de densificação e subtileza da matéria- com seus períodos de manifestação (Manvatara) e descansos (Pralaya).
Aqui o coração espiritual sufi oriental - visto como um sacrário onde a Divindade revela os seus mistérios - confronta com o coração racional material ocidental, observado com um motor que anima ao humano a experimentar com novas formas - Mesmo a hibridar com a máquina - para melhorar seu corpo e ter mais opções de realizar seus impulsos sonhadores na matéria.
Um coração espiritual oriental deslumbrado por alcançar o "Amor Incondicional" , com a consequente aniquilação da egolatria e das ilusões do mundo material (o Maya da filosofia indiana), para finalmente alcançar a união com Bramham - é dizer a dissolução da personalidade humana - dentro da alma limpa de perturbações mundanas - com o "divino dentro nós" - com o nosso Ser Transcendente - mais elevado. Confronta aqui com o coração espiritual ocidental deslumbrado pela atração material - suas diversas formas - e a possibilidade que a ciência e tecnologia oferece de multiplicar as formas materiais e permitir novas perceções e novas sensações -
Novas experiencias que provoquem novos sentimentos e novas paixões dentro dum mundo material, construído na raiz da racionalidade e o consenso humano como organizador - e não pela raiz espiritual ou divina que transcende e dá sustento a toda a matéria (visão que foi abandonada no período medieval, na Europa, e que já não é central no Ocidente).
Estas duas visões de fundo - que não são refletidas na prática mais quotidiana das camadas mais populares - levantam muros de separação entre a nova intelectualidade, que toma relevo no Ocidente - progressista materialista - e as nova Intelectualidade que se afiança no Oriente - mais tradicionalista, conservadora e espiritualista.
Isso não excluí os grupos espiritualistas ou materialistas - do Ocidente e do Oriente - mas o poder politico, económico do Ocidente promove estas visões materialistas (ainda a dia de hoje - a pesar das tentativas do Círculo Eranos) -e pela contra o poder político na Eurásia e no Oriente valida as outras perfectivas, mais afins às suas respetivas tradições.
E aqui está a outra guerra, que já em outros textos temos menos pormenorizadamente falado - pelo controle da Noosfera.
Sendo que em esta tessitura o acomodo e o dialogo se torna mais complicado. A maiores o Ocidente Corporativo de Controlo Talassocrático privado - confronta também o poder governativo do Oriente Soberanista de Controlo Estatal Telurocrático.
Um poder intermediário - como o do Brasil - com sua "diplomacia da paz" - único poder "anfíbio - de terra e água" - que junto a África do Sul e a Índia - no ISBA - poderiam fazer de ponte entre mundos - se assemelha agora muito importante para tomar corpo e ter uma via de interposição entre os mundos conflituantes - e poder fazer de nexo entre ambos.
Mas para isso o Brasil terá que amadurecer o suficiente para seu poder soberano Estatal - vencer no interior posições ingénuas ou ardilosas - que no fim de contas entreguem às Corporações Privadas Estrangeiras - as riquezas do seu país.
Brasil precisa dum Estado Social forte - que garanta oportunidades aos mais desfavorecidos - para criar um imenso capital humano - que deve ser a base de todo seu desenvolvimento humano, espiritual e cientifico -tecnológico. Tendo em conta que em Brasil o ideal racional unido ao ideal do transcendente está fortemente presente na sua genética cultural - Sendo o país uma crisálida, em formação, de todas as etnias e de todos os credos.
Que assim a humanidade acorde para um dialogo permanente entre os povos - e um trabalho interior do indivíduo para melhorar sua ética, moralidade e sentido do amor. Amor elevado como força que move verdadeiramente o mundo, único capaz de atuar contra a obscuridade do múltiplos medos.
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