A GUERRA E A VISÃO ESCATOLÓGICA - POR ARTUR ALONSO
No seu estudo intitulado "A influência persa/aquemênida na religião judaica", José Ademar Kaefer, nos descobre a seguinte realidade: "...a religião/ideologia/política persa influenciou a formação do imaginario religioso judaíta, que resultou no judaísmo, o qual se consolidou no período helenista. Procuramos apontar alguns aspectos, que nos parecem, sobressaem desta influência. O primeiro aspecto e a mudança do conceito de Deus do pré-exí lio para o pós-exí lio babilónico. De um Deus próximo, que caminha com o seu povo, para um “Deus do céu”, distante e inacessível. Este Deus precisara agora de uma intermediação. que será o papel dos anjos, que ganhara o grande relevância na teologia do pós-exílio. Assim como o rei persa, Javé terá agora um conselho de sete anjos, que estará sempre diante de dele e a seu serviço imediato. Ou seja, a corte celestial será inspirada na corte persa. Outro aspecto da influência persa e a mudança da função da Tora . Antes do exílio, a Tora era basicamente um conjunto de instruções utilizadas pelos pais para educar os filhos e pelos sacerdotes para orientar o povo. Agora a Tora se tornara também um código de leis, utilizado para julgar e punir, assim como a lei persa. Outro aspecto da influência persa será a importância do fogo como manifestação Deus. Sabe-se da importância do fogo sagrado na religião persa, que parece só se oficializou como fogo permanente no templo com o regime aquemenida. E plausível que esta pratica tenha influenciado a teologia judaíta na conceção da manifestação de Javé e, por extensão influenciado também o cristianismo. Outro possível elemento de influência persa se encontra na importancia de Ciro, o Grande, para o conceito de Messias, tanto no mundo judaico, quanto no cristao. Ou seja, uma relação de proximidade e ate de identificação entre Ciro, Davi e Jesus. Por fim, apontamos a similaridade entre a missão do sacerdote egípcio Udjahorresnet, a serviço dos reis persas, e a missão do sacerdote e escriba Esdras. Esta similaridade de ambas as missões é um elemento que corrobora fortemente como comprovação histórica da pratica persa de auxiliar a organização da religião local dos reinos sob seu domínio em função da manutenção da ordem e da paz”
REFERENTE HISTÓRICO
Existe hoje um debate na comunidade académica, e são já alguns os estudiosos que falam abertamente que a maior parte do texto bíblico foi escrito no período pós-exílio, o que acrescentaria uma maior solidez a tese da influência persa sobre a Tora judaica.
Segundo o Doutor Osvaldo Luiz Ribeiro - a introdução no Zoroastrismo persa duma dualidade em luta (Deus bom - benevolente e deus malvado - perverso) - que vai influenciar posteriormente o ideal escatológico cristão e judaico - pode ter surgido duma má interpretação do ideário taoista da "dualidade necessária" - do "ying-yang" - que teria chegado à Pérsia através da rota da seda.
Enquanto no taoismo a necessária confluência dos contrários - gera o equilíbrio da harmonia (não pudendo existir uma dissolução duma das polaridades - o que se significaria a dissolução da matéria) - no Zoroastrismo - a luta dos mesmos não poderá ser terminada - ate que um (o Deus da Luz - e do Bem) poda vencer ao outro (o deus das trevas e da maldade).
Segundo o professor Ribeiro - seriam os "fariseus" - que eram conhecidos como os judeus persas - os que teriam introduzido o conceito da dualidade - acrescentando ao Deus único judaico - uma contraparte sombra autodestrutiva infernal - a qual seria derrotada com a chegada o Messias.
O livro de Daniel, que para a maior parte dos académicos (menos influenciados pela perspectiva religiosa) teria sido escrito durante o período helenístico; entre o 167 e 164 a.C (devido aos detalhes precisos dos eventos históricos ocorridos durante o reinado de Antíoco IV Epífanes) - descreve uma cronologia espiritual - que marca o trunfo final do Reino de Deus - e a chegada da Grande Tribulação e Ressurreição. Este livro ainda é interpretando, nos dias de hoje, como guia para os confrontos geopolíticos que na atualidade traz muito preocupação ao mundo.
Para alguns historiadores o "Livro de Daniel" foi escrito em apoio a rebelião dos macabeus - contra a helenização dos Ptolomeus... Os autores cristãos mais religiosos ainda dão validez a data de escritura do livro - por volta do 530 a.C - período do cativeiro babilónico - tendo como autor o próprio profeta Daniel.
Passando a ser uma referencia importante junto a Ezequiel, 38-39 e Apocalipse, 20 - nas suas menções sobre a batalha entre Goge e Magoge. Sendo que em Ezequiel a intervenção de Deus - em favor de Israel - derrota ao exército invasor - permitindo o trunfo do povo eleito. Enquanto em Apocalipse - as forças de Satanás destruem o "Reino de Cristo" - e de novo a intervenção de Deus - colocará outra vez o Bem por cima da maldade no mundo.
No Alcorão aparecem referencias, a mencionada batalha, na sura Al-Kahf, 18:83-98 - Com o que vemos como a influência escatológica, nascida tal vez do ideal dualista persa - está presente nas três religiões abraâmicas.
No "Asclepius" temos a "profecia de Ísis" - atribuído a Hermes Trismegisto (provavelmente escrito a inícios da era cristã)- Este texto nos fala do abandono dos Deuses Egípcios, domínio estrangeiro, rios de sangue assolando o país e fim dum ciclo glorioso. De novo estamos falando das quedas civilizacionais e das mudanças de eixos e centros geográficos materiais e espirituais.
Entre o imaginário coletivo ocidental também temos o Ragnarok - a proposta de "fim dos tempos" da mitologia nórdica - mas que como uma leitura mais detida esse fim do cosmos e sua renovação parece anunciar ou prenunciar o fim de um ciclo evolutivo, que poderia bem encaixar com a mitologia indiana e seus ciclos ou Yugas.
Na tradição indiana - que junto a suméria também influenciou os caminhos da Ásia Central - e Ocidental - assim como da Europa, através da Grécia- no sagrado "Bhagavad Gita" (parte do épico Maabarata)- nos encontramos com a luta entre a luz e as sombras - Em tempos de declino do bem e ascenso do mal.
Tempo que poderíamos situar nas fases mais entrópicas de declínio civilizacional - com forte queda da ética- trunfo da perversão e do caminhoda perdição- e necessidade de erguer um novo centro civilizatório para manter viva a chama da evolução humana.
Acontece aqui a luta entre o setor que caiu na sombra atrativa dos apegos materiais (desligado do transcendente espiritual) e pelo tanto destrutor da harmonia social - contra o setor que permanece fiel a ética, preservador da ordem e a lei (que por necessidade de sobrevivência se tornou protetor da luz, em tempos de guerra) - Representante este lado luminoso do novo processo civilizador em construção - ainda em andamento.
PROBLEMATICA ATUAL
Na atualidade, como já temos referenciado em outros artigos, o Messianismo judaico - do novo sionismo supremacista e imperial - que tenta realizar a construção dum novo Israel do Nilo ao Eufrates e erguer de novo o III Templo de Salomão - como premissa para a chegada do Messias - está aliado ao Neo Imperialismo norte-americano - e ao poder evangélico cristão - que acredita que com a construção do Grande Israel e do novo Templo - a Segundo Vinda de Cristo à terra será efetivada.
Piorando a situação muitos cristãos sionistas acreditam no Armagedon como prenúncio da chegada do Cristo, não aparentado ter medo a um possível confronto nuclear- visionado como o Armagedon necessário para a segunda vinda de Jesus.
Introduzindo na diplomacia e geopolítica internacional - um ideário escatológico - que derruba todo o sistema relacionamento entre as nações - erguido a finais da II Guerra Mundial - e muito debilitado após o unilateralismo norte-americano de finais da Guerra Fria e inícios da globalização.
Nesta etapa de irrupção da multi-polaridade, o mundo em concorrência entre as velhas potencias em declínio e as novas em ascensão - não encontra um marco legal internacional novo para encaixar nos novos retos e as novas fricções - Sendo que está impor-se, para desgraça da humanidade, uma remodelação pela força - Antes uma força factual, mais pacifica, pela inércia do poder comercial chinês procurar uma expansão sem atritos - Agora mais guerreira, por causa do declínio Ocidental com a irrupção dum belicismo neo imperial norte-americano - que vê no uso da força militar a única forma de reverter a ascensão dos seus novos adversários.
A escatologia judaica e crista evangélica - ligada ao "destino manifesto" da superpotência norte-americana, em esta nova realidade em construção, marca uma visão onde a diplomacia internacional - passa a ser um entorpecente no "sagrado dever" de construir o "espaço vital novo" para assentar o projeto religioso.
A necessidade de libertar terras - para assentar população que possa encaixar no futuro projeto imperial israelense- lembra aquele colonialismo britânico de substituição no norte da América.
A escatologia russa - da III Roma - e do bastião contra o "anti-cristo", aliada da escatologia iraniana xiita - do Mahdi - como protetor dos justos - que permitirá a chegada do Cristo - desta vez como filho de Deus - se unem para impedir o projeto escatológico norte-americano e israelense tome corpo e crie um poder no Ocidente da Ásia que possa ditar as normas globais - tanto a Rússia como ao Irão e a China, que veria interrompido seu canal de rotas comerciais com centralidade nas cidades chinesas.
Assim a China milenar - confucionista e taoista - que nada tem a ver com a visão escatológica - se vê obrigada a tomar partido (já não pode seguir vendo o combate desde o alto da montanha) - pois seu novo poder comercial em expansão - pode ser travado se o projeto escatológico - israelense e norte-americano tomar corpo.
Estas dinâmicas - a pesar dos grandes reveses de Israel em Líbano e mesmo em Gaza - e de EUA e Israel em sua guerra contra o Irão - e, mesmo da dependência do poder militar norte-americano dos minérios de terras raras chinesas, para sua produção militar - não auguram nada de proveito. O belicismo se estende. E as batalhas tomam corpo por todos os continentes. Onde grupos pró EUA e grupos pró multi-polaridade, junto a grupos que tentam uma via intermédia (como elites do Brasil ou a Índia) combatem em todas as áreas politicas.
O CONTEXTO ATUAL
Na atualidade diversos projetos confluem, dentro deste novo mapa geopolítico, onde a velha ordem surgida da II Guerra Mundial - e modificada no processo globalizador (aquele velho mundo "baseado em regras") está praticamente morta.
A unidade ocidental do período globalizador - se bifurca em três linhas de atuação, com três projetos alternativos e em certo modo conflituantes:
a) O neo imperialismo norte-americano - fraturado o movimento MAGA e o setor soberanista anti-imperialista desprezado - o presidente Donald Trump tornou-se um ativo da nova doutrina imperial duma Súper Potencia - com direito auto atribuído à reitoria do mundo.
b) A neo Commonwealth britânica - A vitoria do "Brexit" permitiu as elites britânicas vitoriosas das lutas caseiras - abandonar o trem em recuo da globalização e rumar para um novo projeto integrador da anglo esfera. Tentando reunir e fundir as elites britânicas com as das antigas colonias, dentro duma centralidade londrina, com projeção ampla internacional - e redes de apoio nos diversos países deste área de língua inglesa.
d) o Projeto de Sobrevivência europeu - nascido por causa da dependência Atlântica dos EUA não ser já uma parceria estratégica adequada. O poder neo imperial norte-americano precisa colaterizar todas as riquezas dos territórios baixo seu domínio- para poder sustentar sua pirâmide de 47 triliões da sua insustentável dívida.
Entre o resto de potencias temos:
- O projeto neo-otomano turco - agora com dificuldades crescentes trás o fracasso da Síria - onde o governo está na aliança de Ancara - mais o pais está em um processo que complica a margem de manobra regional do presidente turco Erdogan. - Projeto em procura da unidade turcomana - que em muitos aspetos, se não houver profundos diálogos pode conflituar com a Rússia - dado muitos territórios da antiga União Soviética ser de raiz turcomana.
- O projeto do Eixo da resistência - liderado por Irão - que tenta em primeiro lugar expulsar Israel da região - e depois unificar o mundo islâmico em torno de uma unidade xiita e sunita.
- O projeto Saudita de centro islâmico - com o poder central da Meca - que China logrou intermediar para criar uma ponte com Irão - que Israel - EUA tenta quebrar - e que tem diferenças muito profundas como Emirados Árabes Unidos. Agora se nao parar a guerra com Irão - Emirados muito próximos duma situaçao limite - e Arábia Saudita com dificuldades. Daí EUA estar pressionado por seus aliados árabes (que o podem abandonar) para finalizar a guerra - enquanto Israel presiona pela continuidade (na sua dinâmica escatológica de primeiro derrubar Irão, para depois derrubar Turquia e, fazer-se dono incontestável de toda a região do Ocidente da Ásia)
- O projeto de integração da África francofona - liderado por Burkina Faso - e apoiado por Rússia - em detrimento da França e da União Europeia (queestão abandondo a região, ante a impossibilidade de manter seu antigo controlo neo colonial).
- O projeto neo indigenista mexicano - que de seguir a frente - enterra o projeto hispanista - que tenta situar Madrid como centro duma futura hispanofonia - e modifica o relacionamento com a União Europeia, que procura novas alianças para sua sobrevivência.
- O projeto Brasileiro oceânico - de independência da América do Sul - e irradiação de laços com o hemisfério Sul - em confronto com o projeto neo imperial norte-americano que, entre outras aspirações, tenta dominar todo o continente americano. E com pontes abertas com outros territórios - como a China e a União Europeia- daí que a Administração Trump tente derrubar governos europeus contrários à vassalagem do Velho Continente aos EUA, como o da Espanha ou da Itália.
- O projeto euro-asiático russo - que tenta irradiar sua proteção militar - e seus relacionamentos civis, culturais, económicos e diplomáticos - desde um novo centro Euro-Asiático, por todos os lugares do mundo onde possa fazer alianças - convertendo a Federação Russa - numa potencia global. Novo poder internacional do novo mundo multipolar.Este é o novo projeto russo: aspeto em atrito com o poder britânico e europeu - e menos como o norte-americano da Administração Trump (com o que aspira a um certo e difícil acomodo - em varias áreas do globo)
- O projeto de expansão comercial chinês - com extensão mundial e tentativas de acomodo geopolítico global - para evitar guerras e manter a fluência dos negócios - Em atrito com o poder neo imperial norte-americano que visiona China como o rival numero 1 - com capacidade de derrubar, a pelo de agora ainda que fraca e fragmentada, hegemonia norte-americana. Mas acomodado agora com a Europa da sobrevivência - e bem interligado com a Federação Russa - por enquanto o grupo soberanista do presidente Xi Jinping continuar no comando.
Começar a trabalhar a Tripla Transformação ou Libertação:
Individual (cada ser humano transformar seu lado sombra - ate achar o equilíbrio emocional e utilizar com bondade - justiça e equanimidade seu pensamento)
- Coletivo - dotar as sociedades de mecanismos para uma vez pacificado o ser interior - em dialogo aberto pacificar-se as polaridades sociais e pacificar-se com o entorno (deixando de ser predadores da paisagem a ser protetores da mesma)
- E de fraternidade humana - ampliar esse dialogo a uma aberta comunhão entre os povos: entendendo as diversidades culturais, confecionais, políticas e unindo estas singularidades pela essência transcendente - Mantendo a homeostase entre o imanente e o transcendente.
Por enquanto como ensinou Krishna a Arjuna o Bhagavad Gita - defender o nobre evolutivo contra o desvio involutivo - E, em caso de confronto inevitável, pela baixa tónica evolutiva da humanidade, aguardar que os exércitos dos nobres - protetores, vençam em toda batalha justa, aos exércitos entrópicos dos predadores supremacistas - Aqueles loucos - fanáticos, que mal interpretando a escatologia, querem impor pela força seu domínio ao resto dos povos - Sabendo que, em este caso de guerra necessária, confrontar a destruição - o karma pesado recai somente sobre os exércitos das trevas.
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