DEUS NO CAMINHO - POEMA DE ARTUR ALONSO
Hoje vi Deus no caminho,
Ao nosso lado,
guardando nossos passos
na travessia da tarde,
como a barca vazia que navega
levando consigo toda a harmonia
dos espaços
Vi Deus,
O Eterno- Todo Uno,
Infinito, Inalterável, Permanente
em seu Poder realizador -
levando-nos da mão,
sustentando nossos mundos,
nossas danças
(As vezes mesmo bem insanas)
Estava tão distraído
com as minhas pequenas dores,
minhas angústias inventadas
e ilusorias,
que não fui capaz de ver Deus
no rosto do irmão marginalizado
que pedia, ao meu lado
um minuto de benevolência
Não vi Deus
nas três meninas pequenas
do jovem casal, em álcool, viciado
e não fui capaz de estender a mão,
com carinho delicada
- pelo medo paralisada
Nem se sorrir
para tentar alegrar sua falta de amor,
nem de amavelmente
retirar duas moedas
do bolso, bem fundo, do meu casaco
Tão fundo
como a minha mesquinha alma,
em aquele momento
de falta de coragem
(Teve mais tarde que limpá-la)
Por distraído não pude ver a Deus,
O eterno - inabalável,
impulsabdo o voo das grandes
e pequenas aves,
compondo a sinfonia
que move as folhas de todas as árvores
E, quando reparei vim esse mesmo Omnipoder
sofrer com cada uma das nossas lágrimas.
Impulsando nosso coração
no abismo da noite mais escura,
onde o estómago sangra,
quando as pernas já não avancam,
fazendo-o chegar ate uma precaria morada,
onde nossa voz interior tenha um hora de descanso.
O vi - omnipresente
mantendo com firmeza nossa saude mental,
quando todas as pressões
descem sobre nossas casas,
acima do frágil telhado
Vi o Eterno - Infinito
beijar todas nossas feridas amargas
abraçando dentro de nós
as sombras - fumo,
que em nossa ignorância
sem saber, com orgulho, densificamos;
assim também o vi acarinhar
toda aquela luz
que conseguimos, com mito esforço, resgatar
do mais duro dos combates
(Isso que depois a nós
se nos dá por chamar de aprendizagem)
Vi a Deus sustentado cada ser
na maior das suas dificuldades,
não deixando ninguém cair
a passar de todas as tempestades
Assim pude observar também
que nunca caminhamos sozinhos,
mesmo sendo pelos progenitores
abandonados,
e no lixo da história
pela nossa própia história mal contada
precipitados
E pude entender, a vez,
que esses seres carregados de sofrimento,
na amargura do pó de todas as estradas
são os que Deus mais ama.
E aguanta seus corpos
frágeis de tanto alento efêmero aguardar
ao deitar-se
nas tristes ruas, das mais frias
e gélidas prazas,
pelo sentimento de compaixão
continuamente abandonados
E somente, quando eles, não podem mais
Deus lhes abre as portas da sua casa:
voltam ao seio
da verdadeira mãe e do verdadeiro pai,
depois duma difícil travessia
por este labirinto das imagens
- onde tudo se contrapõe em contraste
Ate numa renovada vida
toda sua ignorância terminar
e seus olhos poder gozar,
após a conquista (em si mesmos) realizada,
da glória de ver a natureza final da calma
dentro de seu ventre ter presença dada
Vi aqui a essência de Deus
Luminosa, Inalterada
permitindo o livre evoluir
dos seres que ainda não podem amar-nos,
porque nunca aprenderam
ou tiveram a oportunidade de amar-se,
enquanto os braços do Eterno tecem, para eles,
caminhos luminosos na esperança,
mesmo acima da invernal lama
E olhei a paciência de Deus,
por eles a aguardar,
para ver com jubilo respirar,
em alguma vida,
no local exato,
no momento certo,
na hora marcada
- a alma deles regressar
ao Amor Incondicional para abraçar-se
com todos os mundos,
com todas as gentes,
com todas as raças.
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