LEMBRANÇA DO SOL - Artur Alonso 


Tantas vezes pensei, para ti,

a harmonia da chuva, tal vez, no teu cabelo;

na manha mais húmida, em que aquele raio de vida:

verdes as pupilas, sobre montanhas verdes, refletiu,

atras das nossas costas,

aquele dia em que, tremendo de duvidas, recitei

para ti (somente para ti)

teu primeiro e único poema de amor

Agora, com a caída da folha, pelo vento virado canção

(sonhado foi em segredo...)


Quantas vezes eu pensei

nos seres que habitam dentro de nós,

na sabedoria que dos muitos aprendi

simplesmente para entregar-te

una camisa flutuando dentro da tua límpida alma


E tu rejeita-la como um costume

(temendo muito astuta a encoberta, do homem, dominação),

porque aprendeste na adolescência

que ninguém entrega nenhum embrulho como ouro,

em um feitiço carregado de paixão

(dada a frieza de quem sabe ver a emoção 

 alterar a harmoniosa visão do mundo no qual habitas

 Sendo teu dever de ser por sinal pragmática) 


Quantas,

tantas vezes

ainda pressinto o orvalho anunciando

o inverno a voltar, verde na verde fragrância

dum olhar que se esqueceu, no passado, deitar um beijo

a berma da estrada para entender o musgo tem tanta beleza

... como teus olhos no agora 


Como se fosse algum dia outra rotina acontecer

nos teus lindos sonhos cantando o prazer

de, desde uma verde janela, poder, sem tocar,

incendiar-se, entre ambos, a chama do amor

impulsiva e imprudente 

Quantas,

tantas vezes eu à noite

quando tento distanciar-me do espelho

me volto a encontrar (interior)

com tua divindade sem brilho

apagando a angustia na luz,

para não derrubar-me

penetrando interior "falas" das tenues saudades:


de sentir nos teus beiços ao amanhecer

as verdes silhuetas insinuando-me ao olhar

verdes são os campos mesmo não ensolarados, pela tua voz,

do adentro invernal - caminhando juntos rumo ao quotidiano 

valor do pecado em silencio deitar-se

a ambos lados das nossas distancias  


para nunca dos meus pensamentos

os teus se possam afastar,

libertados os medos de se condensar,

apavorados na alma a aguardar

muros gelados separar nossos corpos

cansados de tantas vezes pensar

possível não ser amar-se

entre a perseverança

verde dos campos, verde da luz

dos olhos que verdes refletem o sol

aguardando pela primeira voz - da sua primavera livre 


aquela em que tal vez, os amantes, possam gozar

do espaço espiritual, que em nosso templo interior, não tem limites



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